A pandemia levou a adaptações para realizar atividades físicas e contribuiu, por diversas razões, para que muitas pessoas abandonassem o sedentarismo
Por: Jaíne Cramer e Pedro Henrique

Em tempos pré-pandêmicos, a concepção das pessoas acerca da importância de se praticar exercícios físicos estava em processo de mudança. Um indício dessa transição é o acréscimo, ainda que não muito expressivo, no percentual de cidadãos brasileiros com mais de 18 anos que praticaram o nível de atividade física no lazer recomendado pela Organização Mundial de Saúde (OMS) - que estabelece a realização semanal de 150 a 300 minutos de atividade física aeróbica de intensidade moderada ou de 75 a 150 minutos de exercício físico aeróbico de vigorosa intensidade.
De acordo com dados da Pesquisa Nacional de Saúde (PNS), realizada em 2013 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a média dos brasileiros que praticavam o nível indicado de exercícios físicos foi de 22,7% . Em 2019, ano em que a PNS teve sua segunda realização, a média chegou a casa dos 30,1%, representando um crescimento de 7,4%.
Contudo, no decorrer deste último um ano e meio de pandemia, a relação dos indivíduos com a prática de exercícios físicos tem passado por um processo de ressignificação. Muitas pessoas que praticavam atividades físicas frequentes, tiveram de se adaptar para conseguir realizá-las no ambiente doméstico. Outras, iniciaram a prática de exercícios ao longo do período pandêmico em razão de fatores relacionados tanto à busca de bem-estar físico quanto mental.
Adequações
A impossibilidade de realizar atividades físicas em academias ou ao ar livre devido ao isolamento social, cobrou daqueles que precisavam continuar se exercitando, a adaptação das atividades ao ambiente doméstico. Foi o caso da cirurgiã dentista Aline Brant Veloso, de 42 anos. Praticante assídua de exercícios físicos há cerca de oito anos, ela começou fazendo aulas de pilates na busca de fortalecer a musculatura da coluna e prevenir possíveis problemas decorrentes das posições pouco ergonômicas que seu trabalho exige.
Em virtude do cenário pandêmico, Aline teve de adequar a realização de seus exercícios ao espaço de sua casa para seguir na ativa e manter tanto sua saúde física como emocional. “Eu comprei algumas coisas simples assim. Comprei elásticos, bola, coisas possíveis de carregar para qualquer lugar que eu vá e que eu consiga fazer alguma coisa”, ressalta Brant. Além disso, ela conta que passou a realizar suas aulas de pilates de maneira remota, acompanhando as orientações dadas por uma professora de pilates por meio de vídeos.
Aplicativos
Um recurso muito utilizado ao longo da pandemia por indivíduos que passaram a se preocupar e buscar a melhora da saúde e do bem-estar foram as plataformas digitais. A internet - por meio das redes sociais ou dos chamados “apps fitness”, aplicativos que orientam atividades físicas sem o acompanhamento de profissionais - tornou-se uma grande aliada de quem objetivava manter a saúde. Ainda que tenha pontos positivos, a utilização desse recurso pode acarretar em alguns problemas ligados, principalmente, à realização incorreta dos exercícios. A fisioterapeuta Simone Ferreira Liboreiro, 40 anos, pontua que “os aplicativos são bem vindos sim, mas a pessoa tem que ter um acompanhamento para evitar lesões.”
Simone ressalta ainda a grande importância do acompanhamento de um profissional durante a execução das atividades. “Na verdade, todo exercício deve ser orientado. Na maioria das vezes, as pessoas têm alguma patologia associada e querem fazer o que é passado (no aplicativo). E acontece de alguns exercícios serem contra indicados para elas”. E complementa: “as pessoas devem, sim, procurar um profissional que seja da área de educação física, que seja da área da fisioterapia, para melhor prescrever o que têm que fazer, e para não acontecer algumas lesões ou desconfortos desnecessários.”
Saúde mental
Apesar de ser a forma mais indicada para conter a disseminação do novo coronavírus, o isolamento social tem levado muitas pessoas a desenvolverem problemas relacionados à saúde mental, como ansiedade e depressão. Com isso, muitos indivíduos têm buscado se exercitar a fim de melhorar essa questão - pois os hormônios liberados durante as atividades físicas contribuem com diversos benefícios à saúde mental.
A esteticista Kamila Gomes da Silva, 24 anos, integra esse grupo de pessoas. Tendo passado os últimos 17 meses saindo de casa apenas para trabalhar, Kamila começou a ter crises de ansiedade e precisou procurar tratamento psicológico. Sua terapeuta recomendou que ela praticasse atividades físicas, o que auxiliaria no tratamento e lhe daria bem-estar. “O que me levou a procurar (os exercícios) foi exatamente a ansiedade. O exercício foi um meio também de eu tipo… descarregar", destaca Kamila.
Ela começou fazendo atividades em uma academia, mas alguns fatores a levaram a dar uma pausa: um desgaste no joelho devido ao excesso de atividades físicas e o medo do contágio. Ela então, optou por fazer treinamento funcional com um personal trainer particular, fazendo os exercícios ao ar livre.
Atualmente, Kamila vem colhendo os resultados da sua mudança, mas acredita que ainda não atingiu todas as expectativas que tinha quando começou. “ Mudou muito, muito. A autoestima da gente é outra coisa!”, conta. E ressalta: “eu creio que eu ainda não conquistei tudo que quero. Eu estou naquele processo de construção ainda.”
Pós-pandemia
Com o início da vacinação contra a Covid, em 17 de janeiro de 2021, surgiu uma esperança da retomada das atividades presenciais, mesmo que de forma lenta e gradual. Oito meses depois, dados do consórcio de veículos de imprensa - referentes ao dia 15 de agosto deste ano - mostram que o ritmo de imunização está aumentando, mas ainda está longe do ideal. No Brasil, 54,25% da população já recebeu a primeira dose da vacina; já a imunização completa, com as duas doses, chegou para apenas 23,43% dos brasileiros.
Ainda que o país esteja melhorando seus índices de vacinação, diversos serviços não essenciais, como as academias, já retomaram suas atividades presenciais. Para Aline Brant Veloso, a cautela é aliada à segurança, pois “ainda não dá para relaxar”, pontua. Ela ainda conta que mesmo com este avanço, manterá suas atividades online, já que o resultado obtido até o momento é satisfatório e ela tem mais flexibilidade para realizar os exercícios a qualquer momento do dia.
Com todos os protocolos adotados, a sociedade - destacando os praticantes de atividades físicas - busca o retorno de sua rotina, afetada por um vírus disseminado no Brasil e no mundo. O que fica agora é a esperança de dias melhores e que, cada vez mais, a população se sinta segura para voltar a realizar seus exercícios sem restrições e com a imunidade coletiva sendo alcançada.

